quarta-feira, 14 de maio de 2014

A músicalidade negra no Rio Grande do Sul, Garrão Rachado, um pequeno questionamento a cultura gaucha

A músicalidade negra no Rio Grande do Sul, Garrão Rachado, um pequeno questionamento a cultura gaucha

Texto de André Gomes de Almeida









   

   
     Nei Lopes nos brinda com  os relatos de como as tradições rurais, entre elas a poesia como parte elemental para a criação do partido-alto, não podemos deixar de lado a influencia destas comunidades negras rurais para a formação  e fomentação da musica negra gaúcha de cunho urbano, ainda que muitas vezes os laços poderiam com o tempo estar mais dilúidos na grande cultura de massa.
Conto esta  esta história como eixo principal para tratar de elementos presentes em diversas comunidades quilombolas, de modo a termos os elementos norteadores.
Ou melhor, a ilusão criada através do movimento tradicionalista de 1948,  onde a figura do negro tanto no processo de formação do estado do Rio Grande do Sul na economia, politicas e enfim, quanto no processo que abrange a parte cultural são negados ou foram propositalmente desconsiderados. Salve os CTGS negros, do qual não tenho informações para tratar deste caso.
    Este trabalho nada mais é que a  leitura de vários autores e entrevistas que vem sendo realizadas que mostram um pouco da cultura negra do campo e sobre os ritmos negros no estado do Rio Grande do Sul, mais especificamente na região sul do estado, voltando ao passado e ao presente para fazermos uma analise de como se desenvolve esta cultura.
    Ainda que esta africanização parece ser velada ela é para nós que nascemos com uma influencia diretamente ligada ao campo ou um legado deixada as gerações posteriores que nos ligam a nossa ancestralidade. Ela na verdade é “Invisibilizada” completamente, e agora devemos retoma-la.

1.Os tambores e alguns relatos de danças negras

A presença dos tambores e seus ritmos é atestada não apenas na região Urbana de Pelotas , mas também no campo durante a época mais antiga, o que mostra que nossa tradição foi escondida e perseguida dentro da dita cultura gaucha culturalmente.
vários relatos são colhidos por DelaVechia, relatos de Ana Centeno, militante do movimento negro que conta que seu bisavo teria em São Lourenço tambores. Vemos os relato de Adão Monquelat sobre as festas nas charqueadas:

Segundo nos informa Adão Monquelat descrevendo  o relato de dreys:

 Na estação de matança, isto hé, de novembro até maio, o trabalho das charqueadas principia ordinariamente á meia-noite, mas acaba ao meio-dia, e tão pouco ficam cansados  ficão os negros, que não hé raridade velos consagrar a seus batuques as horas de repouso que decorrem desde o fim do dia até o instante da noite em que voz do capataz se faz ouvir”.1



2. Os Ritmos inseridos na dita, cultura gaucha



Outro ritmo afro, é a milonga, palavra esta que tem sua origem no termo quimbundo segunda língua mais falada em angola:

“O termo milonga, que denomina hoje um gênero musical bastante difundido no sul do
continente americano, é também nome de uma das cidades de onde provinham muitos dos
africanos que desembarcaram na região do Prata, situada, hoje, na República Democrática do
Congo, antigo Império Lunda.(...)"Milonga", uma referência, talvez, à
cidade no Congo, ou ainda à ideia de 'palavra falada', que é a tradução do termo milonga do idioma quimbundo para o português.Era, fundamentalmente, ligada a três aspectos culturais: denominava-se milonga um
baile com dança de pares comum nas periferias urbanas,também as payadas de contraponto,
espécies de desafios entre trovadores, e finalmente, denominava-se milonga canções
compostas em poesias rimadas e acompanhadas de violão, estas mais restritas ao âmbito
urbano, ao contrário da anterior ligada normalmente ao
gaucho payador.
No entanto, bem antes disto, em 1800, encontramos um gênero chamado estilo, uma mistura de milonga e payada, que era praticado no Rio da Prata. No mesmo momento, fazia grande sucesso no Uruguai um poema também intitulado "Milonga", uma referência, talvez, à cidade no Congo, ou ainda à ideia de 'palavra falada', que é a tradução do termo milonga do
idioma quimbundo para o português.”


    Como fala Adão Monquelat em seu livro, Notas ás Margem da Escravidão, comenta sobre a presença dos Pajadores negros, comentando sobre a Argentina fala sobre como os Gaúchos negros estão inscritos na vida Argentina do século XIX e XX por diversos autores, entre eles temos citados no poema Martin Fierro, a presença do Pajador negro que desafia o personagem principal como fala Adão “Numa lida pajadoresca”.Entre outras que o autor cita, Pacho luna, que afastado das pajadas estimula o jovem Gabino Ezeiza, um dos mais famosos pajadores argentinos, Valentin Ferreyra, Higilio Cauzon, Facundo Galvan, Luis Garcia entre outros diversos grandes artistas negros da dita música gaucha argentina,  onde nos dias de hoje existe um trabalho de resgate destes personagens e da infleuncia negra dentro de sua musica,e nos é possível ouvir graças a gravações realizadas no inicio do século XX na argentina.
Os pajadores são conhecidos como poetas e improvisadores,
outra marca da cultura negra, devemos lembrar tambem o que Andrews coloca no século XIX  as chamadas tapadas, duelo poetico e de tambores2, como a forma que vai consagrar a forma vocal das pajadas mais tarde.
  A música  gaucha até os dias de hoje esconde um véu enorme sobre a influência negra existente nos ritmos, entre eles devemos citas a Vaneira, termo utilizado para o  ritmo afro-cubano chamado Habaneira, :


“Vaneira, vaneirinha ou vaneirão
Sem sombra de dúvida, a vaneira é o ritmo mais apreciado e mais executado nos bailes gaúchos.Ritmo afro-cubano a Habaneira influenciou vários ritmos dos países hispano-americanos sendo difundida na Espanha.
Conhecida também como Havaneira, acredita-se que seu nome tenha sido uma homenagem a capital de Cuba, Havana ou também como é conhecida La Habana. Chegou ao Brasil por volta de 1866 e influenciou não só ritmos do RS como também o samba canção dos cariocas. No Rio Grande do Sul, a Vanera ou vaneira ganhou outros nomes, de acordo com o andamento da música. Vaneirinha para ritmo lento, vaneira para ritmo moderado  e vaneirão para ritmo rápido.”

O tango já chegaria ao estado muito cedo, as primeiras gravações de tango são realizadas aqui no estado no inicio do século. O tango é outro ritmo envolto em trabalhos que atestam sua influencia negra. O termo tango definisse como espaço onde os negros faziam suas festas na Argentina e Uruguay, tambem vemos os nomes acima citados, ranchos ou tambos. A questão é que o vocabulo tango tem em sua dimensão uma questão bantú, ainda que os grupos de tango pouco havia percussão, temos apenas uma pequena amostra de Sebastian Piana em seu Conjunto Candombe, mas no mais as muśicas que parecem relatas os tangos, como Tango de Los Negros de Arthur Navarra, mostra a transcrição para o violão dos candombes.O Tango Patagones de Gabino Ezeiza mostra o Tango e a devoçaõ das populações afro-argentinas e criolla em geral.Logo após ainda temos uma pesença afro cada vez menor no tango, ainda que existente em sua história.
Qesta é uma pequena analise tendo em base teorias e relatos junto novamente a visão de que a dita cultura gaucha foi sempre uma transgressão as fronteiras nacionais, sendo que culturalmente, de forma que os três países tem uma ligação fortissima e que um véu ainda existe sobre a procedencia afro destes ritmos.
   

4. Questionamentos.

     Estão estes personagens dentro da dita cultura gaucha?Porque não temos uma ligação do samba como uma musica tambem “tradicional” gaucha(diga-se de longe africana)? Devemos lembrar também que Teixeirinha gravou uma quantia de samba, e Gaucho da Fronteira nos tras seu Vaneirão Sambado...uma fusão de dois ritmos legitimos de herança africana, um sempre lembrado e outro colocado de lado.

    Devemos repensar toda a tradição gaucha como musicalidade afro-brasileira e devemos então poder repensar nossas tradições. Onde elas se cruzam?
    Digo isto porque, assistindo o programa mesa de bar,veiculado na TVC, os grupos vocais em concurso no centro português fazem versões de musicas tradicionalistas em versão de samba. Outro fato também importante da relação entre essas culturas que se dizem distantes, é a realidade existente entre essas famílias negras com o campo, como conta Vera, filha de Zé da Cuica, sobre suas viagens ao interior onde sua mãe teria terras, e la viviam descendentes das pessoas que ali ficaram, existiu então um transito destas comunidade. Outro tema a ser aprofundado é as mulheres negras dentro da musica tradicionalista, pouquissimas são encontradas como temas nas musicas ou como musicistas e interpretes.
    O samba no Rio Grande do Sul pode ser tratada a partir de seus maiores expoentes, entre eles Lupicínio Rodrigues, Túlio Piva e Caco Velho, para além da vasta gama de artistas que existiram e existem ainda hoje em todo o estado.
    No entanto não se deve esquecer os ritmos percussivos do estado do Rio Grande do Sul,para além dos ensaios de promessas, quicumbis, Maçambiques, a região sul do estado teve a presença marcante dos ritmos de tambores.


 Vivemos hoje um processo semelhante aqui no Rio Grande do Sul, uma vez que os trabalhadores eram em sua grande parte nomades e dos cruzamentos e fugas de escravos na região entre Uruguay, Argentina e Rio Grande do Sul. Os artistas negros de tradição rural tem menos possibilidades de ascenção, podemos lembrar Cesar Passarinho(nascido em Uruguaiana, cidade hoje conhecida por seu carnaval), Saraivinha (nascido na cidade Quilombola do Passo do Lourenço), Floriano e Neir (da mesma comunidade)3, entre tantos outros das comunidade quilombolas das regiões sul do estado, como Seu Deni na comunidade do Potreiro Grande, os grupos da Comunidade do Alto do Caixão, grupos de dança do Passo do Lourenço, dos grupos da comunidade São Marcos em Piratini,  Alemão Preto cantor e compositor nascido na região da Solidão em Canguçu, o Coral da Comunidade de Manuel do Rego entre tantas outras expressões.


Baile de los Morenos

Baile de los morenos,
Tu-tu-cu-tum-bam-bá...
Tu-tu-cu-tum-bam-bá
Tu-tu-cu-tum-bam-bá...
Los tamboriles ya rezongan con su repicar
Tu-tu-cu-tum-bam-bá.
Ya los negros se alborotan,
El candombe comenzó,
Con las lonjas bien templadas
Muy alegre el corazón.
Quiebra el negro las caderas
Al compás del milongón.
Tu-tu-cu-tum-bam-bá,
Tu-tu-cu-tum-bam-bá...
Repiquetear sobre las lonjas del tambor...
Baile de los morenos
Que siempre vivirá,
Mientras los tamboriles
Impriman su chas-chas.
Nubes hay en el cielo
Que van cubriendo el sol,
Porque viene San Pedro
A escuchar el tambor.
Suenan fuerte las lonjas
Va seguido el compás,
Que viva la esperanza
Que sueñan al bailar.(Candombe, uruguaio)

As danças mortas ou desconhecidas?
   



Bambaquere

Bambaquere é uma espécie de fandango, de origem africana, ou seja, um conjunto de danças,que se executa em uma noite de fandango, temos como exemplo a quadrilha, composta de tirania, tatu, cara, balaio, chamarrita, serrana, recortado, etc..

O bambaquere, , baile reginal, é muito popular no sul, é muito mais popular no sul, principalmente no estado do Rio grande do sul.Coreografia,  homens e mulheres dançam e cantam em circulo, enquanto um ou dois, dançarinos executam vários passos e figuras.

O bambaquerê (também chamado de bambaquererê) é um baile, espécie de fandango, muito comum no Rio Grande do Sul. Da mesma maneira que o fandango, o bambaquerê consiste num conjunto de danças executadas durante uma noite de folguedo.
É também uma dança singular: homens e mulheres cantando e dançando em círculo, enquanto ao centro um par solista executa vários passos e figuras que culminam com uma umbigada.

Segundo R. de Mendonça, palavra "bambaquerê" significa dança do bambá, e tem a sua etimologia em "mbamba", acrescida de "querê", alteração, talvez de querer. Também é chamado de bambaquererê. Provavelmente o mesmo que bambá. 4



    Estas informações sobre a dança do bambaquere não pude colher mais informações, no entanto talvez ela tenha sido mais um das danças de umbigada na região sul do estado.Me recordo que em uma das biografia de João Candido, uma  biografia mais ligada ao lado ficcional do que propriamente , coloca no dia de seus nascimento uma festa de bambaquere. O nome bambaquere no entanto parece ser mais visto dentro dos livros de folclore da cultura gaucha, no entanto  não encontrei nenhum video, ou pesssoa que possa falar diretamente, tenho que recorrer a outras fontes.
Outra informação que pude coletar foi  no Cd de Barbosa Lessa,
A música bambaquere de letra de Barbosa Lessa foi gravado em 1978, música de Heleno Gimenez do grupo Tempero5 segue-se a reportagem encontrada:

Entre as marcas de Gimenez estão a participação no disco Som Grande do Sul, de 1978, e a classificação como finalista na 8ª Califórnia da Canção Nativa com a música Bambaquererê, com letra de Barbosa Lessa (considerada a primeira música de gênero afro-gaúcho apresentada nos festivais).
"Desde epochas muito remotas, a população africana aqui, então representada por alguns milhares de pretos, [ ] todos os domingos e dias santos, do meio dia á noite, exhibia-se publicamente em dansas e cantigas usadas entre os gentios. O ponto dessa reunião era sempre á grande sombra de cinco de nossas frondosas figueiras, dispostas em amplo circulo que indicava o traço de um antiguíssimo curral, offerecendo, por essa amplitude, franca área e todas as condições para a diversão. Essa localidade é além do arroio Santa Bárbara, á esquerda da ponte da rua Riachuelo, entre a Manduca Rodrigues e o referido arroio6. Á hora indicada, do centro da cidade partia o grande grupo de africanos, cantando em altas vozes, ao som de rudes tambores [grifo meu], chocalhos, guizos e de extranhos instrumentos feitos de grandes porongos, revestidos de elevado número de contas, búzios, pequenos caramujos e missangas. O vestuário era exquisitissimo, constit”ído de tangas, turbantes, capacetes, mantos, tudo das mais vivas e variadas cores. Á frente, vestido no mesmo estilo, seguia o Rei, por todos acompanhado até o lugar do batuque (candombé) como elles denominavam. Todo esse cerimonial era também executado nos velórios, assim como nos enterros até o defunto baixar à sepultura. (OSÓRIO, 1922, p.174)"

Outro ritmo que podemos dizer que foram se extinguindo na região, mas que podemos ver referencias é o candombe. O candombe, é referenciado no século XIX  é referenciado por Barbosa Lessa para a região de Pelotas e seu interior, veja o relato colhido:

Aparece em locais de charqueadas, como Pelotas, ou em regiões de culturas dispersas, com ocupação ilimitada do terreno (agricultura extensiva), como ocorre em Osório e no vale do Taquari, ou ainda em locais de concentração urbana, como na parte velha de Porto Alegre.

Segundo Paixão Cortes e Barbosa Lessa, o candombe, circunscrito a essas regiões, acabou por não adquirir maior significado no Sul, logo caindo em desuso.

O informante desses autores exibiu ainda diversos ritmos, tocados em velhos tambores, aos quais chamava de canjenjera, tibitibi e santo-antônio. Revelou que outrora os tambores soavam durante toda a noite, num ritmo trepidante chamado semba pelos negros (crioulos). O canto era começado pela cumba, uma cantora-dançarina-solista, que lançava um tema, repetido intermitentemente pelo coro.6


Estes dois ritmos o bambaquere e o candombe, aparentemente sumiram do repertório e ou não se manteve talvez graças a repressão que as culturas afro-gauchas sofreram e sofrem ainda hoje.
    Esta parte se dedica a tratar sobre as sobrevivencias da cultura negra no estado do Rio Grande do Sul comparando com Argentina e Uruguay. O motivo é de que a cultura dita “ Gaucha” ultrapassa os limites do prata e junto a ela podemos ver uma série de elos que ainda não foram reatados. Podemos pensar esta metáfora justamente com a chegada novamente do candombe no Rio Grande do Sul e a chegada das religiões de matriz africana nos países do prata, junto a este elemento, devemos ressaltar os ecos da cultura afro-uruguaia e afro-argentina principalmente por ser um pais com população negra muito menor, no entanto, tem elementos muito importantes para compreender o processo que sucedeu com a cultura negra na região. Acreditamos, que seja este primeiro momento apenas um ensaio teórico, mas que pode no fundo estar dialogando com a obstrução das fronteiras sejam elas culturais ou racial que temos em todos os países citados,
    O baile de los Morenos, começamos com os relatos sobre as festas negras na região da argentina durante o seculo XIX:

Vemos o relato para a Argentina sobre a organização das festas negras:

Os locais dos candombes não eram chamados salas; eram ranchos construídos pelos próprios negros, em terrenos livres ou cedidos pelos proprietários aos seus escravos. As sociedades tinham ainda por fim, reunir fundos para a compra de um pedaço de solo, para a construção dos ranchos. Os negros eram mais perseguidos do que em Montevidéu. Proibiam-nos de usar trajes militares, nas figurações dos candombes
 Em Buenos Aires, a instituição de Lubolos, foi também adotada, mas era o candombe a divisão preferida. O futuro tango nacional havia de sair de um vasto conglomerado de tradições, onde intervieram os ritmos, e as danças peninsulares. Vocábulo e tradição, são, porém, negros. Nos candombes, os negros chamavam ao ato orquestral: "tocá tangó", tocar tambor), havendo ainda as expressões "tanga! catanga!" e "ronda! catonga!". Das vozes tongo, tango, tonga... veio o tango, que de início se confundia com a milonga


A metafora da música baile de los morenos se confunde com os bailes realizados nas zonas rurais do Rio Grande do Sul, principalmente com as chamadas festas de ramada, vemos o termo utilizado no Uruguay, em negrito, mostrando como se realizava as festas. Segue-se o relato sobre a época dos bailes e festividades negras rurais, onde meus avós paternos foram nascidos, no Passo do Lourenço   por volta de 1935,desde muitos antes o bailes já ocorriam.Nesta comunidade era comum as festas organizadas por vizinhos, cada dia numa casa, diz minha avó.


Vò: O trigo, aveia. Faziam uma toada muito bonita, mas eu não me lembra mais.Os versos que eles cantavam.
Andre:O que é uma toada?
Vó:Uma cantiga que eu digo, a gente chamava de toada ne?Porque faziam aquela cantiga, uns quantos cantando, a gente achava tão bonito aquilo, ceifando e cantando , eles cantavam uma musica que era, mas eu não me lembro que musica era.
André: E a senhora não lembra que nenhuma toada que a senhora tenha gostado?
Vó:Não me lembro, ate porque a gente não houvia muito,tinha só quando eles iam la em casa, depois. Nos outro lugares.
André: E as festas de reis tinha la fora?
Vo:Tinha no tempo do finado meu pai.
Vó: As festas de reis tinha, como é que é
Vô:  Não adianta que tu não sabe.
Vó:As festas de reis, eu sabia Abrilino, mas eu me esqueci.
Vô: Quem faziam estas festas eram nossos pais, os mais velhos. Não eu não vi as festas, eu ouvia conta.( Judith de Almeida e Abrilino de Almeida).

Vô: Isso nem é da época do finado teu pai.Isso é muito antigo.
Vó: Eu não me recordo.
Andre: E as toadas seriam os mesmos versos que se falavam nas festas pra pessoas?
Lili: Era um canto de trabalho.
Vó: É como se fosse um canto de trabalho.Não me recordo.
Vo: è a mesma coisa, ne épica, a pouco tempo eu fiz isso, não tinha essas coisas de baile como tem hoje. De primeiro era tango, valsa, bolera. Xote, essas coisas assim. Era musiquinha, hoje tá uma falta de vergonha ando tudo pelado hoje.
Vó: Era tudo com gaita, violão e pandeiro.

Os espaços de baile eram criados pela própria comunidade, uma vez que as festas eram segredas, festas de negros, mulatos e brancos.
Outro ritmo que foi citado na comunidade foi a polca, ritmo chegado no século XIX na região, no relato de Seu Hermes, antigo morador dos mais antigos, falecido a poucos anos em entrevista nos contava nas comunidades que ser realizava as chamadas polcas-de-roda, que nada mais seria talvez a polca colocada na sua maneira especifica de bailar e tirar versos, segundo relatava minha avó seria um baile onde as mulheres  tiravam os  homens quando parava, as musicas  o homem e a mulher cantam versos e se terminava  dançando com seu par novamente.O descaso ou “carão” seria não  aceitar a dança. Segundo canto relatado por seu Hermes:

“Negro  criolo veio da Bahia
Pegava as criancinhas e botava na bacia”

Segundo os versos cantados por minha avó:

Pinheiro tão alto
de tão alto se dobro
o menina que eu namoro
que por outra me trocou

Deu nó na fita verde
serve de cascato ponta
vo te da meu desengano
canto pra te dar meu desengano


Laranjeira pequininha carregada de botão
eu também sou pequininha carregada de amor

Atras daquele serro tem um pé de lirio branco
Não é lirio, não é nada é negro que eu to enganado

Muitos destes versos foram relatados por Silvio Romero no final do século XIX, o que atesta a antiguidade das chamadas quadrinhas ou versos.As festas eram realizadas em salões ou em ramadas  feitas com galhos secos ou por fim nas casas das pessoas.Os bailes eram divididos em bailes negros, bailes de mulatos e bailes de brancos, o que atesta que havia uma preconceito vigente onde havia segregação racial estabelecida e mantida. Um dos casos contados por minha avó versa sobre uma baile onde os negros foram atacados pela policia, e com isso seus convidados foram obrigados a sair pelas janelas.  Percebemos que mesmo no campo a “ policia” vinha coibir os bailes de negros.
Desta maneira vemos a necessidade da presenvação das raizes do campo na cidade de Pelotas, muitas famílias se deslocaram do campo para a cidade e com isso levaram suas histórias e cultura.

 As festas de reis como vemos nos relatos eram animados por toadas cantadas de maneira coletiva, um relato pode ser encontrado por Fernando Osório em 1922:
Segue-se o comenatário de Fernando Osório em 1922 sobre as festas de reis em Pelotas:


“ outro tema tratado é sobre as festas de reis, “ sumiram-se as os cantores dos dias de reis, que, em ranchos , costumavam visitar os amigos e parentes, ao som da música festiva,

Ò senhor dono da casa
escutais e ouvireis
que da parte do Oriente
são chegados os três reis”

 e surgiram as cançonetas depois cabarés; desapareceram os cosmoramas e vieram os cinemas; foi-se o Fragata com todo o seu prestigio de arrabalde aristocrático e veio o Ponto Chic; foi-se  a cacimba do mato, rodeada de gravatás e vieram o brilhante e o Diamantinos rodeada de seduções estontantes; foi-se a varzea extensa verde  e ugriu a torre eifel do mercado, (Luz daquele tempo e acendeu-se a luz elétrica; Foram-se os iates do São Lourenço e vieram as itas7 8; foi-se o minueto e veio o tango; eclipsou-se a chamarrita e trinunfou o maxixe).(1922, Fernando Osório)9.

Fernando Osório fala então sobre a perca das festas em torno da civilização que se construia no espaço urbano de Pelotas, mas como vemos nos relatos as festas na região rural persistiram em algumas comunidade durante algum tempo como nas comunidade da Vila Progresso,   Coxilha Negra, Passo do Lourenço e ainda viva na comunidade de Coxilha Negra em São Lourenço.10


3. Do campo para a cidade: Ritmos Urbanos e sua ligação com o rural.

 O Diario Popular Diz, “ e la de longe em longe um grupo de pretos minas, , como os chamam, a cantar um diapasão infernal umas mnonótonas toadas, que sempre principaim  por-aioê! Aiuô! E a largar um perfume que nada tinha de Pinaud nem de Lubim...depois o batuque. Oh! Isso era de escangalhar a alma do pŕoprio Satanás!”..Alguns anos depois depois, em 1903, o Correio mercantil cita: “ nada de novo entre os mascarados: as pretas minas com seus batuques”.(pg 84)

Vemos tambem referencia aos negros minas, com seus rituais na região onde seria a rua Saldanha marinho, possivelmente iorubanos, referenciado por Alvaro Barreto em 1896, saindo as ruas. Grandes são as referencias as chamadas tio e tios minas da cidade de Pelotas. Não tive acesso a referencias que os iorubanos tenham feitos festas ao ar livre novamente nas festas populares públicas.
    O samba é referenciado em Pelotas já no ano de 1910, como observa Alvaro Barreto:

“O repertório musical das apresentações , por exemplo, é composto de árias de óperas, música erudita, valsas e modinhas.Somente  a partir dos anos 1910, são incorporados alguns tangos brasileiros, , lundus, maxixies e sambas.”pg 51.

A partir de 1920 temos principalmente junto aos cordões negros as chamadas marchas-rancho e os sambas  do chove como são referenciadas nos jornais, o que demonstra a antiguidade do samba na região, ainda que não é possível saber os nomes e locais, enfim mais dados.Algumas músicas da região rural, de marca negra foram incorporadas nos bailes urbanos pelos agrupamentos musicais chamados Jazz, referencia obvia aos grupos norte-americanos, no entanto no seu repertório de música brasileira, uma canção do tempo dos escravos era tocada nestas festas, acompanhe:

“ As festas  bailantes das sociedades  recretativas negras na década de 1930, eram animados por Orquestras de jazz como Choro Gaucho(Clarinete, violino,saxofone, soprano,, trombone, dois banjos e bateria), Jazz 9 R.I(regimento da Infantaria),Jazz Arrelia e Amadores do Jazz, , formadas pelos seguintes intrumentos  musicais:baixo,bateria, violão,banjo, trombone, piston  e saxofone.Segundo articulista do A Alvorada, os amadores do jazz, no baile realiizado no Depois da Chuva,”sapecou a última marquinha “Vae te embora negro”, uma polquinha de outro planeta.”.

Segundo meu avô e minha Avó, Abrilino Marques de Almeida e Judith Dias de Almeida, nascidos  no 4 distrito de Canguçu, na localidade conhecida como Coxilha das Flores e Passo do Lourenço, atual comunidade quilombola do Passo do Lorenço, relata que aprendeu esta canção com os antigos como eles contam:

André: Esses versos que cantavam, era os negros que cantavam pros negros mesmo?Eram os brancos que cantavam para os negros?
Vó: Quem?
Vo: Os negros pros negros.
“Galinha Frita, Peru Assado
simbora negro do pé rachado
Cuidado negro do Catimbau(Marimbau)
Cuidado negro te passo a pau”

Outro relato encontrado foi da Griot Sirley Amaro, cuja família descende de uma comunidade negra do campo,  fala também de seus pais que trabalhavam no casarão  da entrada da cidade por Rio Grande, contava seus pais que os negros cantavam este som quando os patrões mandavam que eles parassem de se divertir. Segundo seu relato esta cação era cantada por seu pai na época de carnaval, onde as pessoas iam tocando chamando as pessoas de casa em casa com esta canção.

Referencias:
A.F Monquelat.Notas a margem da Escravidão.Editora da UFPEL, 2009.
Dalla Vecchia, Agostinho Mário. . Vozes do silêncio: depoimentos de descendentes de escravos do Meridião Gaúcho. Pelotas, RS [Brazil]: Editora da Ufpel. 1994
 Dicionário Babylon; Enciclopédia da Música Brasileira
Entrevista realizada com Judith Dias de Almeida e Abrilino Dias de Almeida. Pelotas 2014
Lopes, Nei. Partido-alto, samba de bamba .Editora Palas (2005)
Revelando os quilombos no Sul.Centro de Apoio ao pequeno Agricultor.Pelotas 2010
Osório , Fernando. A cidade de Pelotas, .@ volume. Organização e notas de Mario Osório Magalhães . Pelotas: Editora Armazém Literario , 1998. 3 edição.
http://dancasfolcloricas.blogspot.com.br/2011/03/candombe.html